Destilando Palavras em Ruas de Vento


CONTOS INCONTÁVEIS

O ATIRADOR

Parte I –  Em busca da paz interior

 

Um velho corcunda, com roupas sujas e rasgadas, arrasta-se lentamente pela rua, olho para ele através da mira, tiro simétrico no meio da testa, entre as sobrancelhas, atravessa o crânio, atinge o cérebro. Eu observo com o rifle apoiado no parapeito da janela, eu anseio por puxar o gatilho, bang, sangue espirrando, bang, um sonho destruído, bang, ilusões despedaçadas. Garota loira, vestida de preto, levemente maquiada, roupinha da moda, um tiro um pouco acima do seio esquerdo, penetra a pele bronzeada, atinge o coração, a Savassi e a Vide Bula perdem uma cliente. Homem de terno e gravata falando ao celular e carregando uma valise, um tiro no peito perfura o esterno, atinge os pulmões e ele respira sangue, as multinacionais perdem um grande executivo.

 

Mulher, amantes, filhos, netos e contas pra pagar, um final de semana trabalhando, um sábado no escritório enquanto as pessoas se divertem, um dia ruim, uma vida frustrada e em apenas um dia, tudo pode mudar.

 

Tão fácil puxar o gatilho, tão fácil, então por que eu não puxo? Todos vivendo suas vidas mesquinhas, fazendo suas compras, se divertindo, seguindo suas vidas, indiferentes, tão seguras de si. Grandes pacotes de emoções, ilusões e gordura. Tão frágeis, um tiro e se rompem.

 

Ninguém sabe que estou aqui. Passei a noite aqui, trabalhando, quem poderia sequer imaginar que sou capaz? Logo eu, um homem cumpridor de seus deveres, que paga seus impostos, que vai a igreja, que participa de associações, que freqüenta clubes, que conhece muitas pessoas, um empresário atuante, que gera renda, que gera emprego, um cidadão respeitável, quem poderia suspeitar de mim?

 

Ninguém suspeitaria. Ninguém suspeitaria de minha frustração, de meu vazio interior, da desolação de se acordar ao lado de uma mulher estúpida, envelhecendo a cada instante, os músculos frouxos perdendo a elasticidade, o rosto cada vez mais enrugado, a carne cada vez mais flácida. A decadência dela reflete a minha decadência. E os filhos? Filhos inúteis, que te acham um idiota, pedindo dinheiro o tempo todo, para as festas, as roupas, as drogas, as orgias, os carros, torrando dinheiro sem parar.

 

Muito fácil atirar, um movimento mínimo do dedo suado colado ao gatilho e talvez eu encontre um sentido, talvez consiga sentir algo, um sentimento qualquer, uma pequena emoção, qualquer coisa além da frustração de se trabalhar exaustivamente e os filhos da puta dos clientes não estarem dispostos a pagá-lo, de seu sócio que o acha um imbecil, que o ignora, que não respeita suas opiniões, que o humilha na frente de seus funcionários, todos riem de mim, todos riem, até agora.

 

Agora minha cabeça lateja, eu estou prestes a explodir, terei um colapso, um derrame, um infarto, se não fizer alguma coisa. Então eu miro, uma mulher gorda caminha lentamente, de camiseta azul, que deixa a mostra os volumosos braços, a barriga protuberante, a bermuda branca encardida, apertada, as coxas enormes, ela carrega inúmeras sacolas de supermercado, ela levanta as sacolas até a altura do rosto e limpa o suor que escorre da testa com as costas da mão inchada, o cabelo vermelho brilha ao sol, as papadas embaixo do pescoço me causam nojo, eu miro em sua cabeça, abaixo de onde o suor pregou uma mecha de cabelo em sua testa. Eu miro e puxo o gatilho. Tudo começa a fazer sentido, respiro aliviado, eu finalmente me sinto bem, amanhã será um novo dia, cheio de novas esperanças e possibilidades. (continua?)



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 08h43
[   ]




 

Bocas se abrem e fecham

Infinitamente

Uma boca se abre e você espera

O que está por vir

Uma resposta que nunca chega

Um beijo ansiado por toda a vida

 

Trinque os dentes

Feche os olhos

E aguarde

Porque é muito fácil se machucar

 

As bocas se abrem

E os corpos se cortam

Inadvertidamente

 

Existem bocas e bocas

Escondendo línguas afiadas

Umas cortam mais que as outras

Uma boca aberta que não diz nada

É um momento sublime perdido no tempo

 



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 14h33
[   ]




NÃO PEÇA AJUDA

 

Mais um dia na equação cotidiana da vida.

Chove no fim de novembro.

Entre os carros.

No engarrafamento.

No concreto a água escorre.

 Nos outdoors.

Nos muros grafitados.

O concreto pichado.

Um sonho morto por dia.

Uma vida por dia.

Onde estão todos os desaparecidos desta cidade abandonada?

 

Era sexta-feira?

Qual era temperatura dos nossos corações naquele exato momento?

 

Embaixo do viaduto

Embaixo do viaduto talvez possamos nos programar

Organizar nossas agendas

Tomar decisões

E fazer planos para o futuro

 

Enquanto aqui estamos

Dançando e rindo sobre nossos túmulos

O mundo cai aos pedaços

Nosso fim é tão eminente

O chão está se abrindo

E bebemos mais uma garrafa

E acendemos mais um cigarro

Nossos sonhos estão no chão

E somos incapazes de catá-los

 

Quais são as suas posses?

Não tenha tanta mágoa

Ignore a dor que você sente

Pelas pessoas

Por você

Pelos que ainda virão

Há um posto vazio e abandonado

John Lennon já não grita mais

Se você voar

Tudo vai dar certo

Tudo irá se concretizar



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 15h42
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?



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h44
[   ]




ECOS FINAIS DE 2005

 

 

O ETERNO RETORNO DO FINITO INFIDÁVEL

 

O fim chegará calmo?

Sem grandes alardes?

Tudo desmoronará aos poucos?

Argumentos sólidos

Se dissiparão no ar?

 

Você entenderá o silêncio?

Entenderá os argumentos?

As palavras vazias

O desconforto

O deslocamento

Um objeto sem lugar

 

Lágrimas não se findam?

Sem promessas

Sem palavras reconfortantes

Sem questionar o absurdo

Sem macular a poesia

Sem príncipes encantados

Sem comentários estúpidos

Sem se importar com metáforas

Sem palavras irônicas

Sem desacertos

 

Mensagens Apagadas

A conseqüência de cada ato

Restam lágrimas?

Silêncio?

Paredes cinzas

Corredores solitários

 

O mundo precisa de poesia?

De encanto?

Delete as Palavras

E todas as conexões

O silêncio dispara

E paira

 

 

Ano novo

Vidas velhas

 

 

As estrelas caem pesadamente do céu

Estrondos e explosões

As flores continuarão a perfumar a noite

 



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h09
[   ]




ECOS FINAIS DE 2005

 

 

WALKING IN THE MIDNIGHT SUN

 

Corro atrás de veículos

Que me levem em locais almejados

Há pelo caminho

Vestidos de noiva

Iluminados por luzes brancas

Sorrisos de personagens animados

Ruas desertas e escuras

Acabou tudo?

Será que você fez as compras da semana?

Teve aquela conversa com seu namorado?

Você disse o que tinha de dizer?

O barulho do motor

A madrugada

E todos em silêncio



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h06
[   ]




ECOS FINAIS DE 2005

 

 

NO PAIN NO GAIN

 

O suor pinga no chão negro

Esforços sagrados

Há imagens e sons

Altos e vibrantes

Há aparelhos que te desafiam

Metal frio e impessoal

Gritos e movimentos inúteis

Sonhos de perfeição

Líquidos e esforços repetitivos

Estende-se sem nenhum motivo aparente

Todos movimentam-se ao mesmo tempo

A dor te acompanha

A dor é seu objetivo

Todos se orgulham dela

Porque quer o melhor

Quer se superar

Quer alcançar

Quer sobreviver por mais um dia



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h04
[   ]




II

 

Eu escuto

Eu digo

Eu caminho

Eu argumento

Eu bebo

Cada significado em suspenso

Eu corro

Eu chego

Eu saio

A cada dia

Eu tento

Eu sigo

Eu vivo

O passado nunca vai voltar

O futuro nunca vai chegar

O presente é só o que tenho

E ele sempre se repete

E ele sempre escapa entre meus dedos

E ele sempre foge ao controle

Eu sonho

Eu pago

Eu compro

Eu luto

Eu ganho

Eu perco

E ainda estou aqui

Seguindo

Tentando

Eu desisto

E recomeço

Todos os dias



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h57
[   ]




I

 

Eu corro

Eu saio

Eu leio

Eu falo

Todo dia eu luto

Todo dia eu me desafio novamente

Todo dia eu perco para mim mesmo

Eu chego

Eu lavo

Eu como

Eu limpo

Eu escrevo

E nunca é o suficiente

Eu nunca alcanço os objetivos

Eu defeco

Eu corro

Eu suo

Eu elimino impurezas

Eu tenho novas idéias

Mas as perco todo tempo

Eu volto

Eu penso

Eu ando

Eu luto contra o tempo e não consigo vencer



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h53
[   ]




Havia

 

Havia vários corações pendurados na sala vazia

Alguns sangravam abundantemente

Alguns estavam secos

Alguns pendiam inertes

Alguns imobilizados

Alguns pulsavam muito alto

Outros bem silenciosos

Havia corações em toda sala



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h27
[   ]




Expectativas circulares

 

Não cumpro suas expectativas poéticas

Destruo-me etílicamente inadvertidamente

Ando em círculos repetindo frases e palavras

Meus ímpetos queimam sozinhos sem alcançar metas

 

A preservação pode ser bem desconfortável

Você não segura a minha mão quando minha mente gira

Meus amigos vivem em mundo distante

Tão bonito e onírico

Minha estupidez é tão acalentadora

Quanto a inocência deles

Apesar da minha acidez ser maior

Ainda acredito nestas pessoas

Mesmo se não falam comigo

 

Todos são difíceis

E alguns fingem ser fáceis

Sou egocêntrico

 

As metáforas e licenças poéticas são todas suas

Mas se encaixam perfeitamente comigo



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 14h08
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LIMITANDO O DESCONHECIDO LIMITADO

 

A s Torres de concreto são muito altas

Para que eu as alcance

As paredes de concreto protegem inúmeras vidas

 

Estou fora

Fora de contesto

 

Sou uma terra desconhecida

Não posso ser mapeado

Esteriótipo destituído de forma

Um clichê apenas

Entre tantos

  

Os beijos burocráticos

As luzes automáticas

Acendem no corredor

Ascendem no escuro

Ressentem sua extinção

 

Os sonhos quando se tornam

Verdadeiros

Tornam-se passageiros

Tornam-se pesadelos

 

Ninguém fala mais em ogivas nucleares

Muito menos sobre abrigos nucleares

Mas tem sempre um quarto do pânico

Nos esperando



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 12h45
[   ]




Sincronia caótica

 

Estranhas conjunções astrais

Relógios sincronizados

Encontros inusitados

Oportunidades fálicas

 

Culpe

Estrelas ascendentes

Deuses ensandecidos

A Ironia do Destino

 

Astros sem destino

Arquitetam planos improváveis

A pedra é só um artifício

A minha dor precisa de um referencial

 

Marionetes e fantoches egocêntricos

Dançam inertes

As cordas tensionam

Não force muito

Elas podem se partir facilmente



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 15h14
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Redomas girando

 

Eu não tenho fichas para apostar

Há conversas de que eu não quero participar

O armário com suas portas abertas

Tenta me engolir

Há roupas, livros e caixas

Com suas histórias e segredos

A esperança está no final de semana?

A esperança está contida em viagens distantes?

Ou em delicadas redomas de vidro

Dentro de mentes ensolaradas?



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 15h53
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Melhor é o impossível

 

Meus trocadilhos infames e inúteis

Meus pronomes possessivos

Tento atingir o inatingível

Um sopro original poluído

Inspirações carcomidas

Originalidades viciadas e rançosas

Minhas possessões possessivas

 

No olho do furacão está a solução

No âmago do desespero está a sua destruição

No seu sofrimento cotidiano está sua desintegração

Não force rimas

Não critique sua identificação

Décimo sexto retrato do desespero



Escrito por Marcondes Pseudosangue às 15h48
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